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O QUE DESACONTECEU PARA VOCÊ ACONTECER ?

Por: Roberto Marinho

O que acontece quando as coisas desacontecem? Ah, essa pergunta me pegou de jeito. E se eu te perguntasse: o que desaconteceu para você acontecer? Parece até uma brincadeira de palavras, um enigma daqueles que a gente adora decifrar. Mas tem algo nessa ideia de desacontecer para acontecer que mexe com a gente, não é?

Foi essa a sensação que me invadiu quando me deparei com o livro infantil “Quando As Coisas Desacontecem”, uma poesia visual e emocional criada pelo encontro de Alessandra Roscoe e Odilon Moraes, editado pela Gaivota. É daqueles livros que, mesmo pensado para crianças, toca fundo no nosso universo simbólico, faz a gente parar e refletir sobre os mistérios da vida.

Olha, se a obra foi pensada para os pequenos, mexeu comigo de um jeito que você nem imagina! E aqui estou eu, querendo compartilhar essa reflexão contigo. A sinopse do livro traz uma descrição tão poética que não tem como não se apaixonar: “O que acontece com as coisas quando elas desacontecem?” Foi essa a pergunta que a menina Gabriela se fez numa manhã, enquanto observava o vai e vem das ondas.

Imagine só, as ondas indo e vindo, numa dança sem fim, e ali, naquela simplicidade toda, uma menina questionando o sentido das coisas que desacontecem. É um tema intrigante, que convida a gente a pensar sobre os nossos próprios desacontecimentos e como eles moldam quem somos e o que nos tornamos.

Essa ideia, de desacontecer para acontecer, capturou minha atenção de um jeito especial. Quem diria que um livro infantil poderia me levar a tais profundezas? E é aí que está a magia: nas coisas simples que, de repente, se revelam grandiosas, transformadoras.

Então, vamos embarcar nessa reflexão juntos? Vamos pensar sobre nossos próprios desacontecimentos e como eles pavimentam o caminho para o nosso acontecer. Porque, no fundo, talvez seja isso que a vida nos pede: um constante desacontecer para que possamos, enfim, verdadeiramente acontecer.

Trazendo essa grande pergunta – eu diria até que existencial – para o ambiente psicanalítico, onde transito com frequência e gosto de explorar, surge uma reflexão que quero compartilhar com cada paciente e com você também: o que acontece ou aconteceu com você para as coisas acontecerem? E o que foi que desaconteceu e aconteceu?

Essa pergunta, tão intrigante, me faz sorrir. Lembra-me dos textos de Freud, especialmente quando ele fala sobre os neuróticos: recordar, repetir e elaborar. Parece complexo? Vamos descomplicar.

Freud nos mostrou que, muitas vezes, nossas ações são repetições de experiências passadas, manifestadas sem que a gente se dê conta. Ele nos convida a mergulhar nessas repetições para compreender o que está por trás delas. O que desaconteceu no seu passado que ainda reverbera no seu presente? E como essas repetições moldam o seu acontecer hoje?

Pense nisso. O que em sua vida precisa ser lembrado, repetido e elaborado para que você possa, enfim, desacontecer o que não lhe serve mais e abrir espaço para o novo acontecer? Essa jornada de autoconhecimento é um processo contínuo, um ir e vir de ondas emocionais que nos convidam a olhar para dentro e transformar o que encontramos.

Então, vamos juntos nessa reflexão. Vamos questionar nossos desacontecimentos e como eles pavimentam nosso caminho. Porque, no fundo, a vida é isso: um constante desacontecer para que possamos, verdadeiramente, acontecer.

Em um dos seus trabalhos mais delicados e ricos, ” Recordar, repetir e elaborar”, Freud, com a maestria que lhe é peculiar, mergulha fundo nas bases do pensamento psicanalítico. Lá em 1914, com um olhar que atravessa o tempo, ele percebe algo fascinante: os pacientes, ao se relacionarem com o analista, acabam revivendo comportamentos e atitudes que trazem lá do fundo da memória, das experiências mais antigas.

Freud nos diz que o paciente, em vez de lembrar aquilo que esqueceu ou reprimiu, acaba atuando. É como se ele estivesse num palco, repetindo ações sem nem saber exatamente o que está revivendo. Não são lembranças comuns, são ações carregadas de significados ocultos, repetidas sem consciência do que se está realmente repetindo.

A magia da análise, então, reside na criação de um espaço onde fantasias e pensamentos, que nunca foram plenamente conscientes, podem finalmente ser revisitados. Esse processo abre as portas para que o paciente comece a simbolizar e compreender os significados profundos dessas experiências. Aí que penso a ideia de, acontecer, desacontecer, acontecer novamente.

No setting de análise, o paciente transfere para o analista sentimentos e comportamentos que, na verdade, foram originalmente vividos com figuras significativas da sua infância. É um palco onde o passado e o presente se encontram, se misturam e revelam suas nuances, suas semelhanças e diferenças.

E cada vez mais, entende-se a relevância desses primeiros tempos da vida. A análise, com sua capacidade de trazer à tona o que estava oculto, mostra como os primeiros passos que damos no mundo continuam a ecoar, silenciosamente, nas trilhas que escolhemos seguir na vida adulta.

Veja que genial algumas ponderações sobre o tema, desacontecer para ser: as sementes desacontecem para serem plantam, nuvens viram chuvas, e ondas do mar em espuma. E as ideias? desacontecem e vão para onde e se tornam no que? Mas e as pessoas; se traduzem no que afinal? Existem, crescem, têm medos, depois, destém o medo. Se casam/descasam tem ou não filhos, ficam ou não ricas, pobres. Enfim, tantos questionamentos, não é mesmo. Por fim, na vida, quando as coisas desacontecem, surgem os questionamentos e as mudanças. Ou seja, as pessoas acontecem de uma outra maneira, muitas vezes algo novo, mais criativo e lindo para se viver.

Sempre penso que um episódio novo nunca nos define, e, de fato, tudo realmente passa. Não é história furada, não. Acredito que a grande sacada é perceber o que está desacontecendo para algo novo e maior acontecer. É nesse desacontecer que encontramos aprendizado, paciência e maturidade para lidar de forma positiva com o novo, o inesperado. Haja treino, não é? Mas a vida, sábia como só ela, nos dá tempo para aprendermos e vivenciarmos essas mudanças.

Posso chamar para nossa conversa a tal resiliência. Ah, resiliência, a anfitriã desse movimento incessante: espicha, encolhe, se adapta, se refaz. É um ciclo contínuo, uma dança que exige flexibilidade e força.
Desejo que você desaconteça para acontecer lindamente! Que abrace cada mudança, cada aprendizado, e floresça em cada novo amanhecer.
Foto: desaconteci zero esporte para campeão brasileiro da patinação de velocidade, máster 50, muitos risos.

Roberto Marinho
Publicitário e Psicanalista
Contato: Robertomarinho28@gmail.com

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