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A caneta que desenhou meu universo simbólico.

Houve um tempo em que eu me vi cativado por algo tão simples e, ao mesmo tempo, tão simbólico: uma caneta MontBlanc. Mas deixe-me contar essa história repleta de risos e sutilezas.

Naquela fase da vida, lá pelos meus 22 anos, eu fazia parte do mundo corporativo, imerso no universo do Setcesp- Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas de São Paulo, onde eu atuava como Jornalista, respondendo pela área de comunicação da entidade. Havia reuniões, onde cada empresário, dono de sua empresa de transportes de cargas, alguns destes grupos, presentes e bem conhecidas até hoje.

A maioria destes empreendedores possuía uma caneta Montblanc como extensão do próprio ser. Era parecido como uma formalidade, um código secreto, uma senha de acesso à esfera político empresarial.

Num desses dias memoráveis, em meio a importante reunião estratégica política, com o assessor político da entidade, Natan Chaves, também assessor político de Ulysses Guimaraes, em meio ao burburinho dos debates entre o grupo de empreendedores, soltei involuntariamente, mas alto o suficiente para todos ouvirem: “Isso me parece coisa de máfia… Por que será que todo mundo aqui tem uma Montblanc?”. Gargalhadas aos montes seguiram em uníssono. Foram como música para os ouvidos de todos. Aquela brincadeira inesperada mudou o curso da reunião por um instante, deixando uma marca de risos e memórias naquele ambiente.

Mas a semente estava plantada. A vontade de possuir aquela caneta luxuosa passou a pulsar no meu coração desde aquele dia. Eventualmente, acabei adquirindo a minha própria Montblanc, porém a história não parou por aí. Ela se tornou lendária entre os colegas, gerando mais risos e histórias engraçadas, um tanto célebres nos corredores. Foi como um impulso divertido que me levou a adquirir um produto e uma marca que sempre admirei. Mais tarde, um relógio Montblanc também se juntou à coleção do “ MontBlanc Boy”, como brincavam comigo.

Curiosamente, após mais de 25 anos, no ano de 2023, um anúncio com filme da Montblanc https://www.linkedin.com/posts/robertomarinhopalestrasvendasemarketing_a-montblanc-incorpora-o-esp%C3%ADrito-da-biblioteca-activity-7041413092919980032-xYMw?utm_source=share&utm_medium=member_desktop , apareceu em minha “timeline” do linkeDin, reacendendo essa história à minha mente. Mas agora, entre risos, e após meu percurso pelo mundo da psicanálise, percebi algo mais profundo. Não era apenas a caneta em si que eu desejava. Ela se tornou um objeto carregado de significados, representando desejos e demandas, conscientes ou inconscientes.

Aqui entra o conceito de catexia. Vou explicar. Trata-se de uma força psíquica direcionada a um objeto específico, uma concentração de energia mental. É como se eu tivesse focado à minha energia nessa caneta, transformando-a em algo mais do que simplesmente um objeto de desejo. A catexia vai além do físico, permeando fantasias e símbolos, uma sobrecarga energética que se manifesta no mundo externo. Daí não conseguirmos explicar muitas vezes nossas atitudes e a inserção em universos que acreditamos estar completamente alheios a nós. Mas, não!

Assistindo ao comercial por várias vezes, por algum momento especial, quase como um segredo bem guardado, observei através da mídia [ não sei se intencional ou apenas uma inspiração] o poder da mídia. Entendo ser mais do que apenas uma publicidade. É como se a marca estivesse sussurrando aos ouvidos dos seus amantes seus atributos, características positivas, sensação de transferir poder, luxúria, glamour, ascensão social, o passaporte para a inserção em um contexto bem mais sofisticado.

Por outro lado, já no mundo do marketing, quando uma marca consegue entrelaçar-se com os desejos simbólicos dos seus clientes, está trilhando um caminho mais do que certo. É uma dança delicada transformar anseios em algo palpável. A marca consegue muito bem esta façanha. Realmente o comercial da Montblanc é talvez uma obra-prima nesse sentido. Foi como se a própria essência dos sonhos e aspirações dos adoradores da marca se materializasse diante dos olhos de quem assiste.

É fascinante como uma simples mensagem pode ecoar tão profundamente nos corações daqueles que anseiam por algo. A Montblanc, com maestria, capturou não apenas a atenção, mas também os sonhos de quem busca um pouco mais de beleza e significado no dia a dia.

Assim, aquele comercial não foi apenas uma propaganda. Foi um convite para adentrar o mundo da elegância, um convite para sonhar mais alto e, quem sabe, tornar realidade um desejo guardado no mais íntimo do coração.

E assim, o que era apenas um anúncio se tornou um farol, iluminando os desejos mais profundos dos que se permitem sonhar.

Ah, o poder do marketing quando se torna poesia para a alma dos consumidores, e a Montblanc, com seu comercial, soube transformar esse universo em algo mágico e tangível ao mesmo tempo.

Essa história, esse desejo por uma simples caneta, é um exemplo vívido de como um objeto pode ser catexado. Poderia ser um carro, uma casa ou algo completamente diferente, alguém para alguém outro. É sobre direcionar nossas energias mentais para algo específico, criando uma carga emocional.

Em um mundo onde as fronteiras entre a racionalidade e o simbolismo se entrelaçam, o legado filosófico de Cassirer, o luminar da tradição neokantiana do século XX, ecoa como um convite à compreensão da essência humana. Não somos meros seres racionais, mas sim seres simbólicos, mergulhados em um universo repleto de histórias, linguagem, mitos, religião, arte e ciência.

Entre a simplicidade dos estímulos e as respostas provocadas por eles, há algo singular no ser humano: o sistema simbólico. Cassirer destaca a distinção entre sinais e símbolos, ressaltando que estes últimos transcendem o mundo sensorial para habitar o reino do significado humano. A cultura, esse organismo vivo em constante evolução, só é possível graças à capacidade humana de ir além da mera reprodução sensorial, atingindo um nível simbólico.

Um símbolo, dual, possui duas faces: uma universal, ligada ao objeto original, e outra mutável, moldada pela capacidade humana de metamorfosear ideias. É essa dualidade que fundamenta a complexidade do pensamento simbólico, permitindo a abstração das relações entre os objetos e o desenvolvimento do pensamento relacional.

Cassirer evoca Kant ao afirmar que não podemos conceber a realidade sem as condições de espaço e tempo. O espaço é a forma da nossa experiência exterior, enquanto o tempo molda nossa experiência interior. O homem estabelece relações abstratas com o espaço e o tempo, dando origem a concepções simbólicas dessas dimensões.

Da interseção entre o mundo dos significados surge a linguagem, um fenômeno complexo que se desdobra em múltiplos níveis. Desde a linguagem emocional, próxima ao sensível, até a linguagem proposicional, capaz de estabelecer relações abstratas entre fatos e ideias, a linguagem humana atinge um nível simbólico que marca a fronteira entre o mundo humano e o animal.

A fala humana, esse salto para a abstração e a criação original da espécie, revela-se como um ponto de mutação, uma habilidade única que define a humanidade. A habilidade de transcender os níveis de linguagem é o que diferencia o ser humano, criando um vasto panorama de comunicação.

Assim, cada palavra, cada símbolo, carrega consigo uma narrativa que transcende a mera representação do sensível, imergindo em um mundo de significados, relações e abstrações que moldam a essência do que somos.

Cassirer nos convida a explorar as profundezas desse universo simbólico, onde as conexões entre os elementos vão além do tangível, revelando a beleza e a complexidade do pensamento humano.

E agora, olhe ao seu redor e se pergunte: onde está a catexia na sua vida? Vale à pena toda essa transferência de energia e libido?

Abraços, Roberto Marinho: Publicitário e Psicanalista

 

 

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