COLOR PEN é a quarta mostra individual do pintor e artista gráfico Rodrigo Mota. Ela registra uma parte significativa de suas realizações plásticas ao longo de duas décadas de atuação, parte dela anteriormente apresentada em exposições individuais e coletivas no Brasil eno exterior (Portugal, Chile e Canadá).
Importante destacar sua atuação como ilustrador e diretor de arte em parcerias com escritores e artistas visuais ligados ao movimento surrealista, de que fazem prova os diversos livros por ele graficamente concebidos para a Coleção Ocultura. Em 2013 publicou Tinta da China, livro em que reúne parte de seus nanquins. Lançado sob a chancela das Edições Loplop, Tinta da China foi qualificado como um “primor” pelo escritor e crítico espanhol Miguel Pérez Corrales, que tratou da obra no alentado segundo volume El oro del tiempo (2016), no qual são analisadas as obras e atividades ligadas ao movimento surrealista na atualidade. Em 2017, Rodrigo Mota assinou a capa do segundo
epdo laboratório socio-sônico Lombroso, no campo da música eletrônica experimental.
Como o título sinaliza, em Color Pen temos a reivindicação como instrumento técnico de um objeto ligado à infância: a caneta hidrográfica, que permitiu, em algum momento de nossas vidas, a materialização da primeira proposição de Lautréamont, segundo a qual a poiesis deve ser feita por todos. Como qualquer um que tenha tomado uma nas mãos sabe, a caneta hidrográfica permite – se não instiga – verdadeiras explosões cromáticas, que são, por sua vez, aqui agenciadas como fenômenos de geração espontânea, nos quais cor e traço são lançados em uma busca por formas sensíveis nem sempre pré-determinadas. A prevalência da cor também evoca a força totêmica do pensamento primitivo, sendo certo que algumas imagens de Color Pen
parecem atender diretamente a esse apelo cromático pelo selvagem:
boa tinta garante boa caça, a disputa entre acaso e necessidade na ponta de um arpão que se transforma em caneta.
A pujança dinâmica da cor, transposta ao proscênio, desmonta as rotinas de percepção cromática, atuando, sob o mesmo vetor, nas relações gestálticas tendentes à inversão da dinâmica mimética que
atrela objeto e seus atributos. Convertem-se, assim, em objetos imaginários: a mente e o invisível mordem-se. A atividade plástica passa ser considerada em relação análoga com a do oceanógrafo: um
mergulho pelas regiões pelágicas, uma viagem por labirintos abissais, nos quais, apesar da exuberância cromática, corre-se sempre o risco de se deparar com esqueletos, galerias e galeões submersos, vestígios de naufrágios, soçobros de ímpetos, furores asfixiados sob a pressão submarina.
Como a cor, chama atenção a presença do reino animal. De par com figuras recorrentes (baleias, cefalópodes, tardígrados, animais ciliados etc), há ainda animais híbridos, compostos a partir do mesmo princípio de substituições anatômicas que preside a collage como linguagem (para
além de sua realização matérica): um pé de batráquio tem por corpo uma cabaça e por cabeça um cefalópode; dois pés de ave suportam uma criatura ciliada que tem uma barbatana à maneira de crista etc. Como os híbridos zoomórficos de Max Ernst, como as bonecas dos Hopi, como os
deuses egípcios (Thoth, Amon, Horus), como o Minotauro, estamos diante de uma proposição anatômica com vinculações míticas. As metamorfoses sinalizam para uma contínua irrupção de alteridade: eis mágico. A representação do Outro. A representação da Outra Cena.
É assim que os corpos em metamorfose apresentados em Color Pen
, alçando voo para a condição de objetos imaginários (mediante sucessivas operações semióticas deflagradas pela geração espontânea das formas-invólucros) e atuando na faixa de sedimentação simbólica da psique, são, eles também, uma formulação poética da condição humana no universo.
Deitado sobre as águas, observo o céu e, em dado momento, já não sei mais se estou nas ondas com a cabeça voltada para o firmamento ou se a boiar na estratosfera olhando para o mar. Nessa faixa de sedimentação simbólica, as imagens de Color Pen figuram um território – mais que um
território, um ponto de observação. Um ponto de observação do céu interior.
M.R.Salgado
Rio de Janeiro, fevereiro de 2018
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