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Inscritos na vida.

 

Ah, a jornada da vida, repleta de mistérios e encantos, tece em nós uma trama única e complexa desde o primeiro momento. Em meio aos meus estudos de psicanálise, um encontro com uma frase marcante abriu um novo portal de reflexão: “Viemos inscritos na vida”. Curioso, não é? Parece ecoar a ideia expressa na bela canção de Dorival Caymmi: “Eu nasci assim, cresci assim, vou ser sempre assim; sempre Gabriela”. Uma melodia que ressoa a essência desse conceito intrigante de sermos inscritos na vida.

Ser “inscrito na vida” significa ser lançado ao mundo, imerso em um contexto que nos precede, moldado por costumes, família e cultura. É como uma tinta indelével que se infiltra desde os primeiros anos, desenhando nossos caminhos, permeados por experiências que nos influenciam de maneira profunda e, muitas vezes, invisível.

Essa inscrição inicial, talhada nos primeiros anos, forma a base do nosso ser. Descobri, através da psicanálise, como esses primeiros capítulos da vida nos marcam, moldando-nos com vivências que se transformam em padrões inconscientes. Sim, acontece com todos nós. É um traço indelével que nos acompanha, moldando nossas escolhas, a autoimagem e até os obstáculos que enfrentamos.

No entanto, encarar a existência dessa forma pode evocar uma sensação de resignação diante do destino já traçado. Mas a vida não é tão imutável quanto parece. Ao mergulharmos em um processo de autoconhecimento, novas portas se abrem, novas perspectivas surgem. Podemos desafiar essa inscrição que chamamos de destino.

Essa “inscrição na vida” molda nosso amor próprio, nossa visão sobre nós mesmos. Muitas vezes, carregamos resquícios de inferioridade, de episódios da infância que se manifestam em crenças limitantes, nos prendendo em um ciclo de autossabotagem.

Imagem, fonte: Vida Literária

Navegamos pela existência repetindo padrões, a menos que optemos por uma jornada de autoconhecimento, desvendando traumas ocultos que moldaram nossa inscrição inicial. É uma jornada íntima para entender como fomos inscritos, desvendando eventos reprimidos através do diálogo terapêutico.

Em minha prática clínica, ouço histórias de pessoas que repetem padrões nos relacionamentos, no trabalho, ecoando figuras paternas ou maternas. A pandemia, com suas lições e perdas, despertou questionamentos sobre mudanças reais. Alguns viram a necessidade de mudar hábitos, mas muitos permaneceram fiéis à inscrição já marcada.

Para mim, a chave para mudanças reais reside em observar e compreender meus próprios padrões de repetição. É um exercício constante que revela muito sobre mim mesmo, quebrando o ciclo de repetições. A busca por ajuda profissional pode ser um passo valioso nesse processo de reescrever essa inscrição na vida.

Freud nos ensina que somos estrangeiros em nós mesmos, que o inconsciente guia nossas ações sem que percebamos. O “eu” não basta para compreender toda a complexidade humana, pois somos seres divididos, influenciados por camadas profundas que moldam nossa identidade.

“Quem sou eu?” – uma pergunta tão complexa que nos desafia ao longo da vida, refletindo nossa busca constante por sentido e identidade. No fim das contas, talvez seja nessa indefinição que reside a verdadeira essência da nossa existência.

No reino fascinante da psicanálise, os pilares fundacionais se erguem sobre as memórias, aquilo que Freud, em suas obras primordiais, denominou de reminiscências. Entre tantas descobertas e reflexões, uma constatação se destaca: o conhecimento não reside no médico, mas sim no paciente. E esse saber, tão essencial, reside num plano profundo e misterioso: o inconsciente.

Imerso na busca pela compreensão das enfermidades das histéricas, Freud percebeu a importância da narrativa delas. A história contada por cada paciente não era apenas um relato; era a chave para desvendar suas dores e encontrar o caminho da cura. Nesse emaranhado de revelações, a inovação mais marcante foi essa percepção: o conhecimento oculto, que traz a cura, habita no inconsciente de cada um.

Ao longo de sua jornada intelectual, Freud revisita sua concepção do Eu. Ele desvenda a ilusão de uma suposta unidade, sempre ameaçada por forças invisíveis. Lacan, por sua vez, salienta a importância de enraizar na história do sujeito o que molda sua vida, afirmando que é no próprio relato que o sujeito se forma. Para ele, o Eu é uma ilusão, um fragmento do imaginário, enquanto o sujeito é o domínio do inconsciente, uma entidade distinta.

Diante dessas teorias complexas e desafiadoras, surge o objetivo intrínseco de desvendar como é possível dar forma ao Eu, como conferir estabilidade a algo tão fluido e inconstante. A pergunta que ecoa é: como completar a frase “Eu sou…”? A hipótese que se desenha nesse labirinto de reflexões é a de que o sujeito constrói uma ficção, uma narrativa inventada para lidar com a metamorfose constante do Eu.

Nesse palco de interrogações e teorias, desvendar os mistérios do Eu torna-se uma busca por uma coerência em meio ao caos interior. É uma tentativa de moldar uma história que dê sentido à fluidez do ser, uma jornada que busca, por entre os meandros do inconsciente, descobrir quem realmente somos.

Na intersecção entre o Eu e o sujeito, um vasto universo de significados se desdobra, revelando os mistérios do inconsciente. Desde os primórdios, Freud trilhou caminhos intrincados para desvendar o Eu, mergulhando nas profundezas da psique em busca de compreender essa instância ao longo de sua jornada intelectual. No entanto, é Lacan quem oferece uma abordagem distinta, tecendo a relação do sujeito com o tecido da linguagem, ressaltando a essência do sujeito como um ser inextricavelmente ligado a esse campo de significados.

O Eu, na visão de Freud, se apresenta como uma construção ficcional, um artefato delicadamente esculpido pelo processo de recordação. Desde os Estudos sobre a histeria até suas obras posteriores, como Construções em análise e uma recordação de infância…, Freud enfatiza a possibilidade singular de uma lembrança conter a chave para desvendar a vida psíquica do sujeito.

Em contrapartida, Lacan destaca a importância da historicização das experiências do sujeito, revelando que a narrativa construída a partir dessas vivências pode revelar o sujeito oculto no âmago do inconsciente, pois é na expressão de sua própria história que a verdade sobre ele emerge.

Dessa forma, surge uma nova perspectiva sobre como as lembranças se entrelaçam com a existência. Não emergem simplesmente, mas vão sendo moldadas e forjadas ao longo do tempo. Isso me leva a considerar que não existe um sentido predefinido para a vida. A história do sujeito é uma narrativa em constante construção, uma ficção a ser inventada, entrelaçada pela linguagem e pela relação íntima que o sujeito mantém com ela.

Em suma, a trama da história do sujeito, sua conexão com a linguagem e a constituição de sua subjetividade estão intricadamente entrelaçadas e talvez impossíveis de serem delineadas com clareza, mantendo a hipótese de inscritos na vida.

Roberto Marinho
Publicitário e Psicanlaista
Contato.: Robertomarinho28@gmail.com

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