Texto e fotos por Victor de Andrade Lopes
Aconteceu na manhã do último sábado (10/5) a terceira e última reunião preparatória sobre a revisão do Plano Diretor de Cotia. O local escolhido foi o auditório do diretório regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), na Granja Viana. Os destaques da reunião, mais do que as discussões do plano diretor em si, foram os inflamados discursos do prefeito e seus opositores políticos, que roubaram a cena.
A reunião teve início com homenagens ao músico e morador de Cotia Jair Rodrigues, morto na manhã do dia 8. Em seguida, os secretários Onofre Ferreira (presidente do Conselho da Cidade) e Benedito Simões, bem como o arquiteto José Barauna, presidente da Associação dos Arquitetos, Engenheiros e Técnicos de Cotia (AETEC), fizeram breves explanações da importância do plano diretor e a participação popular. Já o presidente da Câmara dos Vereadores, Marcos Nena (PPS), garantiu que as reuniões dos vereadores acerca do tema não serão fechadas. “Estaremos discutindo e buscando conhecimentos com outras câmaras de outras cidades”, disse.
Quem acabou roubando a cena foi o prefeito Carlão Camargo (PSDB). Em um inflamadíssimo discurso, ele pediu a todos que deixassem o palanque de lado. Anunciou um financiamento de R$ 12 milhões para recuperação de sarjetas e guias e um empréstimo de R$ 16 milhões para construir um centro administrativo de 8,3 mil m² para a prefeitura. Disse ainda que chegou a esperar por quatro horas no Palácio dos Bandeirantes para falar com o governador Geraldo Alckmin. Exaltando-se cada vez mais, disse que “Deus e a população” já haviam o honrado como prefeito e finalizou com o recado: “Não vou deixar ninguém usar o meu nome para criticar a cidade. Quem não estiver satisfeito, que se mude ou que se candidate e ganhe as eleições de 2016!” A afirmação causou muita polêmica. Em menos de dois dias, correntes nas redes sociais e artigos de opinião já criticavam o prefeito por suas palavras. Quando o microfone foi cedido às manifestações da sociedade civil, horas depois, muitos criticaram o desabafo do prefeito, que se ausentou pouco depois de finalizar seu discurso.
A mesa técnica foi então montada, com Onofre, a secretária executiva Juliana Camargo, a vice-presidente da diretoria executiva Patricia Machado e a arquiteta Luciana Alegre, que explicou que o plano deverá ser sustentável (no campo do meio ambiente, da cultura e da economia) e realista, com aplicabilidade compatível com os recursos da cidade. A mesa também apresentou um vídeo do Ministério das Cidades sobre o Estatuto das Cidades e uma apresentação de slides sobre o conceito de plano diretor.

Quando a discussão foi aberta às manifestações populares (limitadas a no máximo cinco minutos cada), o clima esquentou novamente, embora não de imediato. Paulo Generoso, portador de necessidades especiais, foi o primeiro a falar, e cobrou que Cotia seja mais acessível. “Acessibilidade não é apenas colocar uma rampa na calçada, é promover todo um atendimento especial para nós. Prédios novos só deveriam ter alvará se forem acessíveis”, cobrou Paulo. “O próprio prédio do CIESP não tem banheiro acessível”, lamentou.

Em seguida, Delia Costa, do Movimento em Defesa da Granja Viana, defendeu a obrigatoriedade de audiências públicas antes de quaisquer alterações na lei de uso e ocupação do solo. Waldinei dos Santos, morador de Caucaia do Alto, cobrou que o plano atenda às necessidades do distrito. “Nós vamos dobrar nossa população e precisamos de equipamentos públicos, que hoje não são suficientes.”

O líder sindical Alex da Força alertou que a maioria dos artigos do atual plano não foram implementados e cobrou maior participação popular no Conselho das Cidades. O jornalista e diretor da Ecoexistir, Wlad Farias, lamentou que muitas pessoas tenham comparecido à reunião para falar de problemas que já deveriam ter sido sanados. Discordou do prefeito Carlão Camargo e conclamou os cotianos a fazerem justamente o inverso. “Se você não está satisfeito, fique aqui e lute, ajude! Enquanto ele [o prefeito] espera quatro horas no palácio, algumas pessoas esperam meses nos postos de saúde.”

O advogado e ex-candidato a vereador pelo PT (hoje no PV) Silvio Cabral, lamentou que a prefeitura não tenha cumprido com a promessa de espalhar 20 faixas de divulgação da reunião em cada macro zona da cidade. Propôs que todos os artigos do plano diretor fossem implementados até a revisão do texto. Além disso, pediu que seja retirado da Câmara o projeto de lei do estudo de impacto de vizinhança, que, na opinião do advogado, é ineficaz, uma vez que só se aplica a estabelecimentos com mais de 3 mil m².

Ronaldo Alves, presidente da Federação das Associações Anexionistas e Emancipacionistas do Estado de São Paulo (FAAESP), cobrou que os trabalhos sejam técnicos e sem radicalismos. Sem citar nomes, alertou que muitos oportunistas se travestem de ambientalistas para fazer campanha politica, mesmo sem histórico na luta por menos agressões ao meio ambiente.

Pedro Almeida, membro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Cotia, questionou o porquê de a reunião não ser considerada política, se os políticos são justamente os que podem falar à vontade, enquanto que os cidadãos têm o microfone cortado. Marília Gruenwaldt, da GOVerve, perguntou se existem mapas temáticos da cidade e cobrou questões ambientais, a que Onofre respondeu que o conselho fará um levantamento de rios e florestas do município. Dani Terracini, do Transition Towns Granja Viana (TGV), afirmou que a sociedade saiu da zona de conforto e uniu forças para um momento único.
Teoricamente, Dani seria a última a falar, pois o tempo para manifestações populares estaria esgotado. Contudo, a revolta dos cidadãos presentes com a limitação de tempo convenceu a mesa técnica a permitir que os últimos inscritos falassem por três minutos cada.

Quando o ex-candidato a vereador Welington Formiga (PEN) assumiu o microfone, o tempo fechou no CIESP. O político chamou o prefeito de “imperador” e ainda o acusou de tê-lo empurrado, ameaçado e mandado “calar a boca”. Ignorando os pedidos de Onofre para que não mudasse de assunto, Formiga continuou discursando e garantiu que em 2016 a população iria tirar os Camargo do poder. Toninho Kalunga, ex-candidato a prefeito pelo PT, também atacou Carlão e a mesa técnica. “Cotia é qualquer coisa menos o que o Carlão disse! E é ridícula a postura que a mesa assume, controlando a fala das pessoas!”, protestou o político.

Tatiana Mohovic, também do TGV, levou ao palanque algumas sugestões: publicação do nome dos integrantes do Conselho da Cidade e as entidades que representam; leitura ampla das necessidades da cidade; criação de uma comissão técnica com arquitetos, engenheiros, educadores, etc.; elaboração de um cronograma e estabelecimento de metas do plano. Além disso, ela anunciou um abaixo-assinado que a entidade circulou entre os presentes, pedindo a transformação das audiências públicas em reuniões preparatórias e a moratória de novos alvarás na Granja Viana.
Finalizando as falas populares, o vereador Luis Gustavo Napolitano (PSDB) bateu boca com Formiga após afirmar que ele ou sua esposa eram funcionários da prefeitura – Formiga negou veementemente e acusou o vereador de estar “mal informado”. No mais, o vereador se disse “feliz” de ver as reuniões funcionando e tentou fazer algumas sugestões, mas não conseguiu nos três minutos designados. Após uma breve votação de resultado praticamente unânime, Onofre declarou prorrogado o prazo de revisão do plano até 30 de junho de 2015.






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