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Granjeira do mês: Cristina Von, da Giftshopping

O sotaque charmoso revela as origens europeias desta granjeira que já está aqui desde o final dos anos 60. Dona de uma das lojas mais tradicionais da região, Maria Cristina Von Narozny comanda há 14 anos a Giftshopping, no km 23 da Rodovia Raposo Tavares. Antes de chegar aqui, contudo, teve uma história cinematográfica na Europa da Segunda Guerra Mundial, e veio parar no Brasil por um detalhe do destino. Foi modelo, diretora de vendas de grandes empresas, lojista e coleciona “causos” curiosos e pra lá de engraçados que viveu com os amigos que fez na região – incluindo, por exemplo, o finado estilista e político Clodovil. Ela nos contou alguns capítulos desta história em uma conversa na sua loja às margens da Raposo:

“Nasci em Riga, na Letônia. Durante a Guerra, fiquei na Polônia. Meu pai, era alemão, tenente do exército de lá. Ele tinha uma fábrica de couro na Polônia, na Tchecoslováquia (hoje dividida em República Tcheca e Eslováquia) e em Riga. Durante a guerra, não passamos dificuldade, pois, na época, couro valia mais do que ouro. Meu pai mantinha um estoque escondido do exército alemão e minha mãe passeava pelas vilas trocando-o por comida. Ele morreu em 1945, aos 31 anos de idade, quando um partisan jogou uma granada no peito dele.

Nossa situação ficou pior mesmo depois do conflito. Os russos ocuparam a Letônia, a Tchecoslováquia e a Polônia. Nós perdemos tudo e viramos refugiados de guerra na Bavária. Passamos a morar em um quarto por lá. Minha mãe casou de novo, desta vez com um engenheiro metalúrgico russo. O governo brasileiro então o convidou para trabalhar na Companhia Siderúrgica Nacional. Só que ele chegou aqui e não deram emprego pra ele. Ficamos três meses no Hotel Glória, no Rio de Janeiro. Foi aí que ele foi chamado para São Paulo, onde precisavam de um engenheiro especialista em aço inoxidável para rodas de trens.

Viemos de trem para a capital paulista e nos hospedamos num hotel de baixa qualidade no Brás, onde ficamos mais uns três ou quatro meses. Você logo que vê, então, que nos anos 50 já tinha marmelada no Brasil. Enfim, contrataram-no como um engenheiro de manutenção de uma fábrica em Rio Grande da Serra, na Região Metropolitana de São Paulo, e nós morávamos perto do trabalho dele. Em 1956, a Aços Villares comprou um forno elétrico na Alemanha. Eles procuravam um engenheiro especialista nisso, e acabaram localizando meu padrasto. Ele conseguiu montar o forno que foi enviado da Alemanha, e nós nos mudamos pra São Caetano do Sul, onde ele começou a trabalhar. Depois que se aposentou, foi para a Aços Fiel, onde ficou até os 78 anos.

Já eu, sempre me interessei por arte, tanto que estudei Belas Artes. Ao mesmo tempo, trabalhei com um médico alemão, que havia publicado um anúncio num jornal da comunidade alemã procurando uma secretária bilíngue. Também fui manequim para alguns estilistas famosos, como Denner e Clodovil, que eram meus amigos e foram parar na Granja por minha causa, inclusive. Depois, fui diretora de vendas de empresas como a Aziz Nader e a Lastri.

Eu conheci a Granja nos anos 60, quando vim comer num restaurante muito chique da Avenida São Camilo, chamado Dietz (na esquina com a Rua Nova América, onde hoje há um buffet infantil). Eu fui para o local com alguns amigos, entre eles o pintor Wesley Lee e o então vice-presidente da Editora Abril Thomaz Souto Corrêa. Uns cinco anos depois, eu me casei com Geraldo Gavião Monteiro, Visconde de Tremembé e Barão de Mossoró. Nós costumávamos ir a um clube todo domingo, mas em um domingo em especial deixamos de ir para almoçar no mesmo restaurante.  Olhando para a paisagem, vi que havia poucas casas, e eu disse que aqui ia surgir um bairro muito chique. Sugeri que déssemos uma volta, e chegamos à conclusão de que seria interessante comprar um terreno aqui. Fomos procurar um corretor. Na época, só havia um – João Ribas, que era cunhado do Niso Vianna.

Ele nos mostrou vários terrenos, incluindo um em frente ao Palos Verdes, que tinha 15 mil m². Na época, os padres que eram donos dele estavam o vendendo por Cr$ 15 mil. Nós compramos. Alugamos uma casa na Rua Direita em 1969 enquanto construíamos aquilo que seria conhecido como Castelo da Granja Viana – e de fato parece um castelo. Chegamos lá em 1974. Naquele tempo, não havia energia elétrica, e meu marido teve que pagar para puxar energia elétrica para a esquina com a Rua Roma. Não havia telefone também, mas disso o meu marido gostava, pois eu era uma mulher muito bonita, você nem imagina como (risos).

Quando eu morava na Rua Direita, eu criava cachorros boxers, e alguns deles ganharam prêmios. Eu tinha um filhote que, aos seis meses, ganhou o prêmio de melhor da raça, o que é muito difícil para um filhote. Oito dias depois, ele escapou da minha casa lá pelas 14h e foi atropelado e morto por um motorista que trabalhava para o Silvino Pereira. Eu fiquei muito brava, porque o motorista sempre corria nas ruas. Eu fui à delegacia prestar queixa. O Silvino Pereira veio e falou que ‘às 14h, a caminhonete estava cheia de ração, e, portanto, não teria como correr’. Deram-me ganho de causa de qualquer forma. O reitor do seminário era o doutor Alvisio. Ele deixou a batina para ser advogado. Com ele, eu ganhei a causa, e todos começaram a caçoar dele, chamando-o de ‘advogado do cachorro’. A indenização foi estipulada em Cr$ 20 mil, que era o quanto o meu filhote valia. Eu sugeri que o Silvino comprasse uma ambulância, que custava mais ou menos isso na época. Não tínhamos ambulância naqueles tempos, e eu já cheguei a levar muita gente pro hospital no meu carro por causa disso. O Silvino disse que gastaria Cr$ 200 mil, mas não me daria Cr$ 20 mil. Depois, ele acabou doando de qualquer forma a ambulância para o Assa, mas mandou escrever na lataria que era uma doação dele.

Trabalhei bastante no Assa, montei o clube das mães de lá. Eu pegava bordados numa firma chamada Malibu. Como eu fui manequim, eu conhecida vários donos de fábricas. Nós fazíamos um trabalho assim: A empresa Donatelli nos dava os retalhos, e nos fazíamos com eles bordados para o enxoval de bebês carentes. Ou então vendíamos almofadas e panos de prato, e, com o dinheiro, comprávamos fraldas, mamadeira, toucas, lãs, talco. Nós organizamos uma feira um dia. Eu acordei com um barulho muito grande de pessoas. Achei que fosse uma feira livre na porta de casa, mas não, eram as minhas bordadeiras, pedindo produtos. No fim, acabaram me chamando de mãe dos pobres.

Lembro-me que uma vez o Denner me chamou, numa época em que ele estava doente, dizendo que estava sendo despejado da casa dele e que ele queria morar na Granja porque aqui os alugueis eram mais baratos. Só que o Clodovil já tinha comprado um terreno aqui, e ele ficou bravo porque eu tinha arrumado um terreno no mesmo bairro que o Denner – o Clô disse que não ia morar em bairro onde morava viado. (risos)

Nesses mesmos anos, o Clodovil estava sem dinheiro. Ele me telefonou perguntando se eu tinha vendido minha casa, eu respondi que sim. Ele me pediu então Cr$ 5000, o que na época era muito dinheiro. Ao mesmo tempo, uma amiga minha tinha vendido um apartamento grande em São Paulo, e ela tinha vários móveis antigos que não tinha onde colocar. Então eu liguei pro Clodovil, que me contou que estava mantendo os seus móveis num guarda-móvel, o que custava um bom dinheiro por mês. Então eu sugeri que os dois fizessem um ‘família muda-se’. Vendemos bastante. Levei três fins de semana no família muda-se do Clodovil, e ainda sobrou muito coisa.

Uma dia, passei aqui em frente a esta loja e vi uma placa de ‘aluga-se’. Aluguei e montei um ‘família muda-se’ há 14 anos, que acabou virando o antiquário que hoje é a Giftshopping. Tenho muitas amigas que vão ficando mais velhas, perdendo seus maridos e se mudando para casas menores. Elas então mandam seus móveis antigos para mim. Eu vendo os móveis cobrando 20% sobre o valor deles. Eu tenho contatos fixos que eu já sei que compram o que eu oferecer. Agora, alguns clientes cobram muito alto pelos móveis e eu acabo às vezes recusando, porque o objeto empaca se for cobrado um valor tão alto.”

Sobre Granja News

O Granja News, jornal voltado ao público da Granja Viana e região, tem circulação em todo o centro comercial da Granja, parte de Cotia e em 90 condomínios da região, como por exemplo, São Paulo II, Nova Higienópolis, Fazendinha.

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