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Granjeiro do mês: Fernando, do Haras Santa Helena

Texto e fotos por Victor de Andrade Lopes

P1040006Das pedras aos cavalos. Da Espanha à Granja Viana. A trajetória de Efren Fernandez, mais conhecido como Fernando, é tão rica que daria um bom livro biográfico. Nascido na Espanha, passou pelo Rio de Janeiro, por São Paulo (Pinheiros, mais precisamente) e finalmente pela Granja. Há 33 anos, mantém na beira da Rodovia Raposo Tavares sua própria empresa de pedras, mármores e granitos, chamada Requinte Stones. Mas a atividade que mais lhe deu reconhecimento no Brasil afora nada tem a ver com as rochas: Fernando criou e ainda mantém o Haras Santa Helena, onde treina cavalos para shows que já passaram por várias partes do Brasil.

Fernando contou mais detalhes dessa história em entrevista ao Granja News na sede da Requinte Stones:

“Eu vim da Espanha. Meus avós queriam me dar estudo em Madri, Barcelona, Alemanha, onde eu quisesse. Mas eu não queria isso, queria vir ao Brasil. E olha que eu nem tinha consciência do que isso significava, eu nem sabia muito sobre o Brasil. Quando eu cheguei aqui, fiquei no Rio de Janeiro três anos sem trabalhar, vivendo só com o dinheiro que meu avô me deu. Quando os recursos acabaram, vim para São Paulo, em Pinheiros, e fiquei numa pensão de espanhóis. Um deles trabalhava com pedras, e eu pedi para trabalhar para ele. Lembro que ele olhou para minhas mãos e perguntou: “Com essas mãozinhas delicadas?”. No fim, ele acabou me levando – isso foi há 44 anos – e assim eu entrei no mundo das pedras. Comecei como cortador de mármore, e mais tarde fundei a Requinte Stones, há 33 anos. Dizem que os italianos, espanhóis e portugueses têm a arte no sangue – acho que sou um desses.

Um dia, um amigo meu me convidou para conhecer Cotia. Eu me apaixonei pela cidade e pela Granja. Cotia lembrava muito a minha cidade natal na Espanha. Foi aí que eu decidi montar um negócio por aqui, na Raposo Tavares, e abri a Requinte. Com o negócio, eu conheci muitos granjeiros, e acabei vindo morar aqui também, e moro ainda hoje. Por coincidência, nesta semana mesmo, eu recebi a visita do meu primeiro cliente, isso me deixou muito feliz. Hoje, tenho uma equipe de 35 funcionários, já tive mais de 110.

Meus filhos nasceram e foram cridos aqui. Hoje, eu já considero Cotia como minha segunda pátria. Só não considero a primeira porque nasci na Espanha. Eu acredito que, hoje, os idosos estão indo embora e os jovens estão ficando. Afinal, á bastante cansativo ficar no trânsito todos os dias. O crescimento aqui foi muito grande, mas isso tem vantagens. Antes, qualquer coisa que precisássemos fazer, tínhamos que ir a São Paulo. Hoje, temos bons restaurantes e outros serviços.

Depois de fundar a Requinte, eu entrei no mundo dos cavalos. Como eu disse, a cidade onde nasci era pequena como Cotia. Meus pais e avós eram fazendeiros, e tinham cavalos, por isso, eu sempre soube montar em cavalos. Aqui em Cotia, pude relembrar disso, pois no centro da cidade, na época em que cheguei, as pessoas andavam de cavalo e charrete. Um dia, eu e minha esposa fomos assistir a um show de cavalos numa hípica em Santo Amaro. Foi aí que eu decidi que ia fazer um show igual a aquele.

Mas eu não tinha recursos o suficiente, então eu e um amigo fomos a um leilão e compramos um cavalo. Na verdade, ele comprou, mas como não tinha como cuidar dele, ele me deu. Eu trouxe o cavalo para a Granja e deixei junto com outros cavalos de um amigo meu. Logo comprei outro cavalo em um leilão. Acabei ficando com seis. Um dia, levei-os para uma exposição na Água Branca, no qual os meus cavalos levaram três prêmios. Nisso, um amigo da Granja que fazia roupas para mim chegou com um rapaz que trabalhava na Globo e disse que precisava de mim para fazer um show em Goiânia. Eu fiquei até assustado, pois não tinha roupas, nem carreta, muito menos treinamento. Peguei então seis amigos, levei-os para o haras em Cotia e iniciamos o treinamento – tínhamos apenas um mês. Chegamos a Goiânia, e a adrenalina era tanta que eu mal conseguia calçar minhas botas na hora do show. A arena tinha bem umas 25 mil pessoas. No final, o que aconteceu é que nós fomos aplaudidos de pé.

Foi aí que começou o Haras Santa Helena, cujo nome é uma homenagem à minha mãe. Hoje, fazemos shows no Brasil inteiro. Calculo que uns 80% de todo o país nos conhecem, e já fizemos shows para 8% da população brasileira, segundo uma enquete que um amigo meu montou. Eu já carreguei a bandeira do Brasil 28 vezes. Já escutei tanto o Hino Nacional que já o decorei, mas não lembro o da Espanha. É um dos maiores prazeres que já tive na minha vida.

Os espectadores me tratam como um rei, mas o importante não é aparecer na televisão, e sim aquilo que você faz. Uma história muito marcante aconteceu na minha última apresentação na Bahia. Uma senhora ficou me olhando. Eu a abordei e perguntei se ela queria algo. Ela respondeu dizendo que viajou 350 km para me assistir. Como eu senti que ela queria mais alguma coisa, eu perguntei se ela não queria mais alguma coisa, e ela me pediu para montar no meu cavalo. Eu pedi a um assistente que trouxesse o cavalo dele, mas ela percebeu. ‘Este não é o seu cavalo, eu já te vi na televisão’. Eu então pedi que trouxessem o meu. Ela montou no cavalo e deu um verdadeiro show nele. E ela tinha 78 anos! Foi aí que resolvi conhecer mais sobre ela, e me impressionei: ela era holandesa, campeã naquele país em 1944. Eu sinto que represento Cotia em todo o território nacional. Na minha carreta, está escrito “Cotia”. Todas as atividades que envolvem o meu haras mencionam Cotia quando se referem a ele.

Os cavalos são um prazer que eu aproveito às vezes até 0h, 1h da madrugada. Eles me dão a adrenalina que preciso para cuidar da Requinte. É por isso que eu concilio bem as duas atividades. Quando você faz aquilo que você gosta, você consegue ter tempo para as coisas.

Meus planos para o futuro envolvem parcialmente a minha neta Maya, que eu amo muito. Gostaria muito que ela continuasse com o show no futuro, já que meus filhos, apesar de saberem montar, parecem que não vão dedicar a vida a isso.

Eu ainda tenho parentes na Espanha e procuro ir lá uma vez por ano, mais ou menos. No ano que vem, irei fazer um curso de cavalos em Sevilha. Mas não adianta, a minha terra é o Brasil. No passado, os espanhóis desdenhavam do Brasil. Mas agora que estão em crise, eles nos reconhecem como uma potência. Mas o Brasil precisa de mais educação para ser uma verdadeira potência. Hoje em dia criticam muito o jovem, mas eu não concordo, eu gosto do jovem e aprendo bastante com ele. Ele é inteligente e criativo, ainda que cometa alguns erros de vez em quando.”

No final de novembro, Fernando e sua equipe passarão alguns dias na Bahia fazendo apresentações do Haras Santa Helena e participando da Feira do Cavalo.

 

Sobre Granja News

O Granja News, jornal voltado ao público da Granja Viana e região, tem circulação em todo o centro comercial da Granja, parte de Cotia e em 90 condomínios da região, como por exemplo, São Paulo II, Nova Higienópolis, Fazendinha.

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