Por Victor de Andrade Lopes
O Movimento em Defesa da Granja Viana (MDGV) promoveu na noite da última segunda-feira (17/2) a sua primeira “Conversa ao pé da Granja com pequeno Sarau”.
O evento foi iniciado com o sarau, que consistiu em uma breve apresentação do violonista clássico cotiano Ido de Morais, que interpretou peças de Bach, Tárrega, Villa-Lobos e uma peça de sua autoria: “Berceuse”, uma cantiga de ninar que compôs para sua sobrinha.
Ido foi apresentado à música por seus pais. Sua mãe mantinha a tradição das Folias de Reis com seus irmãos e o pai colocava-o para ouvir Bach, Mozart e outros. Começou a estudar música na finada Escola Municipal de Música de Cotia e depois entrou no renomado Conservatório de Tatuí, formando-se ao lado do grande violonista Jair T. de Paula.
Depois, o físico granjeiro Sérgio Valverde falou sobre energia nuclear, seus riscos e benefícios. Sérgio é físico formado pela USP com trabalhos nos diversos colisores de hádrons. Já ministrou outra palestra pelo MDGV em agosto de 2013, com o tema “Como a ciência avançada interfere em nosso cotidiano?” (veja detalhes aqui).
Segundo ele, a mídia divulga com alarde algumas questões, mas ao mesmo tempo omite muitos pontos importantes. Para ele, o maior risco da energia nuclear está na manipulação incorreta dos materiais radioativos. “Todo desastre nuclear ocorre, em última análise, por falha humana”, diz.
Falando sobre o funcionamento de uma usina nuclear, ele explicou que a divisão de um átomo, provocada pelo disparo de um nêutron em direção ao seu núcleo, gera uma reação em cadeia, conforme mais nêutrons provenientes da divisão vão bombardeando mais núcleos. Vem daí a energia de uma detonação nuclear. No caso de uma usina, a divisão dos átomos não gera uma explosão, mas sim um intenso calor, que aquece a água armazenada no local. A água então evapora, e o vapor gira uma válvula, que gera energia elétrica. É quase o mesmo princípio de uma hidrelétrica, com a diferença que a hidrelétrica tem suas válvulas movidas pela força da água, e não do vapor.
O maior risco de uma usina nuclear está justamente no aquecimento – se ele for excessivo, pode ocorrer um acidente. E para evitar que isto aconteça, é a própria água que entra em ação. “Essas usinas costumam ser construídas próximas a rios, pois a água fria deles é usada para resfriar a água do reator.” Esta mesma água usada no resfriamento é jogada de volta no corpo d’água. Embora a água que volta para o rio não seja contaminada com radioatividade, os danos ambientais persistem. “Como ela volta mais quente, isto acaba afetando o ecossistema do rio em questão”, aponta Sérgio.
O processo mais delicado da gestão de uma usina nuclear é o manejo do lixo atômico e o plano de ação para casos de desastres. “No desastre de Chernobil, por exemplo, a população do entorno da usina não foi comunicada sobre o problema, e permaneceram no local a despeito dos riscos”, conta Sérgio.
Posteriormente na palestra, Sérgio comentou ainda sobre o uso bélico da energia nuclear. “Se você é capaz de gerar energia nuclear, você é capaz de fazer uma bomba atômica. Muitos países, inclusive o Brasil, já praticamente possuem bombas atômicas, eles apenas não declaram”. E falando no nosso país, Sérgio não deixou de mencionar as usinas de Angra I e II, em Angra dos Reis, RJ. “Estas usinas foram construídas em cima de uma área chamada Itaorna, que muitos acreditam significar ‘pedra podre’ em guarani. Pagaram praticamente o preço da usina inteira para construir uma fundação que sustentasse o local, e depois pagaram mais uma usina inteira quando descobriram que seria necessário também elaborar um sistema de contenção da maré. Ou seja, a usina foi construída com o triplo do orçamento previsto”, conta o físico.
No decorrer da palestra, Sérgio comentou ainda sobre o recente desastre de Fukushima, o incidente de1987 com o Césio-137 em Goiânia e outros episódios relevantes para a discussão sobre energia nuclear e materiais radioativos.
O MDGV pretende organizar mensalmente as Conversas ao pé da Granja com pequenos Saraus. O próximo deve ocorrer em 21 de abril, com novos eventos ocorrendo mensalmente em todas as terceiras segundas-feiras de cada mês.
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